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Filosofia da técnica
A expressão “filosofia da técnica” pode ser compreendida tanto em sentido restrito como em sentido amplo.
No sentido restrito, a filosofia da técnica é definida como um problema ou campo disciplinar específico da filosofia em geral. Desta forma, ele figuraria ao lado da lógica, metafísica, epistemologia, filosofia política, estética e outros como uma questão essencial da filosofia. Nesta direção, a filosofia da técnica se distingue nitidamente pelos seus problemas e abordagens de campos vizinhos, particularmente da epistemologia e da filosofia da ciência.
No sentido amplo do termo, a filosofia da técnica refere-se a todo aquele conjunto de pensadores que têm a técnica como uma de suas temáticas centrais, mesmo que estes autores não utilizem expressamente o termo “filosofia da técnica” ou mesmo concebam-na como um campo específico da filosofia. Cabem ainda nesta compreensão alguns pensadores que, mesmo não sendo estritamente filósofos de formação, desenvolvem uma reflexão ampla e fundamental sobre o fenômeno técnico.
De acordo com Gilbert Hottois, a filosofia da técnica em sentido restrito possui três escolas fundamentais: alemã, francesa e americana. No entanto, se utilizarmos o uso da expressão “filosofia da técnica” como critério de definição da filosofia da técnica (como faz Hottois), ficam excluídos deste campo importante pensadores e filósofos que fizeram desta temática uma questão essencial de suas reflexões ainda que não recorram diretamente ao termo. Assim, tomada em seu sentido amplo, podemos dizer que a filosofia da técnica atravessa a própria história do pensamento filosófico.
Entre os autores da era clássica (filosofia antiga e medieval) da filosofia não podem deixar de ser nomeados autores importantes como Platão e Aristóteles e suas reflexões a respeito da “Téchné”. Durante a idade média, a técnica fazia parte das “artes mecânicas” que se opunham as “artes especulativas” do trivium (gramática, retórica e lógica) e do quatrivium (aritmética, astronomia, geometria e música), como mostram Gregório de Nissa, Santo Agostinho, Hugo de São Vítor, Tomás de Aquino e Marcílio de Pádua, entre outros. Na era moderna, por sua vez, costuma lembrar-se do nome de Francis Bacon, René Descartes e dos enciclopedistas ou iluministas (Diderot, D’Alembert, Rousseau, etc.) como os principais representantes de uma filosofia da técnica. Mas é especialmente na era contemporânea que o tema da técnica começa a ganhar maior destaque no campo do pensamento científico e filosófico.
No campo do pensamento francês, além dos precursores já nomeados (especialmente F. Reuleaux, F. Dessauer e J. Lafitte), um dos nomes mais citados é o de André Leroi-Gourhan, autor de obras como: “Evolutions et techniques” (composta de dois volumes: L’Homme et la matiére, de 1943 e “Milieu et techniques, de 1945); Technique et language” (de 1964) e ainda “Le geste et le parole” (de 1965). Completam este quadro também as importantes figuras de Gilbert Simondon (Du mode d’existence des objets techniques) e de Jacques Ellul e suas obras já mencionadas: “La technique ou l’enjeu du siécle” e “Le systeme technicien”.
O tema da técnica também mereceu um forte desenvolvimento no campo do pensamento alemão. Entre os autores mais importantes da escola alemã, figuram os nomes de Karl Marx (no século XIX) e Oswald Spengler (O homem e a técnica, 1918), Ernst Jünger (O Trabalhador, 1923), L. Mumford ( O mito da máquina, 1953) e ainda Arnold Gehlen (A alma na era da técnica, 1949) que desenvolvem uma visão fortemente negativa da técnica. Especial destaque, contudo, deve ser dado ao nome de Martin Heidegger que, desde os anos 30, em obras como “Introdução à Metafísica” (1935), “Nietzsche” (1936), ou “As épocas da imagem do mundo” (publicada em “Caminhos do Bosque”, 1950) já chamava a atenção para a centralidade da técnica na sociedade moderna. Esta visão foi plenamente desenvolvida por Heidegger em um importante texto de 1953 chamado “A questão da técnica”, onde ele apresenta sua interpretação da “essência” da técnica como “desocultamento” e sua visão da técnica moderna como “Ge-stell” (armação, dispositivo) Martin Heidegger também influenciou pensadores como Karl Jaspers e Hannah Arendt. O tema da técnica também é central no campo do neo-marxismo com a “Teoria Crítica da Sociedade”, especialmente com as obras de Adorno e Horkheimer (A dialética do esclarecimento, 1947), Herbert Marcuse (O homem unidimensional) e Jürgen Habermas (Técnica e ciência como ideologia, 1968).
Atuando fora dos contextos francês e alemão, também é importante a obra do espanhol Ortega y Gasset, intitulada “As massas e a técnica”. Atualmente, o tema da técnica também está presente nas obras de importantes autores como Michael Foucault (As técnicas do cuidado de si) e Hans Jonas (O princípio da responsabilidade) ou de Ulrich Beck (A sociedade de risco) e Anthony Giddens (As conseqüências da modernidade) e sua “teoria da sociedade de risco no campo das ciências sociais”.
Ética e Técnica
A ética, entendida como ética da responsabilidade, exige do homem que ele responda pelas conseqüências (previsíveis) do seu agir, para usar a conhecida formulação de Max Weber de 1919 em Política como Profissão. A crítica à técnica que adotou esta premissa tornou-se necessariamente um discurso da filosofia moral. No seu contexto, o conceito de responsabilidade ganhou nas últimas décadas cada vez mais importância e parece ter tomado o lugar do conceito de “dever”, como é conhecido do conceito duplo que fala dos “direitos e deveres” do cidadão. Somos responsáveis, então, pelas conseqüências do próprio fazer; responsabilidade não entendida somente como fator causador disso ou daquilo. A responsabilidade no discurso da filosofia moral refere-se ao homem enquanto “pessoa moral” que se sente vinculada com os resultados dos seus atos.
Oppenheimer, um dos físicos “responsáveis” pela construção da bomba atômica americana, sentiu-se assim “culpado” pela morte dos moradores de Hiroshima e Nagasaki. A problemática desta responsabilidade, todavia, aparece nas palavras do presidente americano Roosevelt que negou ao físico o direito de se sentir culpado. “Foi eu que mandei lançar a bomba e não ele.” Neste episódio aparece a grandeza e a fraqueza da ética da responsabilidade ao mesmo tempo, pois é realmente uma questão de perspectiva se um cientista pode ser “responsabilizado” pelos resultados das suas pesquisas. E se pode, permanece a pergunta se este sentimento de culpa, ou a responsabilização de um pesquisador ou engenheiro é de fato capaz de evitar conseqüências negativas de inovações tecnológicas.
Com esta cogitação já estamos, na verdade, adotando um outro discurso referente à relação entre ética e técnica. Este discurso é o segundo grande eixo nas discussões contemporâneas sobre ética e técnica, principalmente nas últimas duas ou três décadas. Ele destaca a questão da avaliação das conseqüências de inovações técnicas e afasta ou, no mínimo, relativiza a problemática da relação entre o indivíduo (cientista, engenheiro etc.) e a nova tecnologia. Na medida em que os efeitos sistêmicos, ecológicos e sociais, entram na mira desta reflexão, ganha este discurso características mais de um discurso proveniente da filosofia social que da filosofia moral. Nesta perspectiva, consegue o manejo político das conseqüências de inovações técnicas resolver os impasses da tentativa de governar eticamente os acontecimentos técnicos. Todavia, confrontamo-nos com outros dilemas: em vez de ser dependente do indivíduo e suas questionáveis qualidades referentes a um agir ético, torna-se a tentativa de avaliar as conseqüências de inovações técnicas completamente dependente das instituições políticas. Desta maneira decide a qualidade analítica e a capacidade de governança das instituições políticas sobre a capacidade avaliadora e controladora institucional. Também significa o technology assessment, assim, a denominação inglesa deste empreendimento, sempre uma reação posterior ao dano já causado ou no mínimo posterior a invenção ou inovação já realizada. Terceiro, desenvolve-se a técnica de preferência num setor praticamente fora da área de competência das instituições políticas, i.e., no setor econômico dominado por atores particulares. E, por último, não devemos esquecer que o setor militar-industrial promove conscientemente o desenvolvimento de técnicas destrutivas; frente a esta realidade, o apontamento de possíveis efeitos colaterais de armamentos torna-se algo tão distante de uma possível solução do problema como o físico Oppenheimer estava distante da explosão das bombas atômicas no Japão. A explosão de uma bomba não é um efeito colateral não intencionado, ela foi feita para explodir de fato.
Aparentemente, a moral subjetiva não vem somente tarde demais e é incapaz de guiar a dominação da técnica pelo próprio homem, a fonte dessa moral secou e caiu no esquecimento. O nomos, a norma moral com força obrigatória, cedeu à anomia, deixando o homem desorientado e desabrigado. Nenhuma invenção de novas normas ou de uma moral para o mundo técnico parece capaz de negar a sua artificialidade. Uma moral como artefato da razão e resultado de discursos não pode substituir o fundamento incondicional que a ética necessita. Como, então, devemos compreender a proposta de Hans Jonas e outros de uma ética para a modernidade técnica?
Contingência e Modernidade Técnica
“O problema da contingência na modernidade técnica” surge com a técnica moderna e suas instabilidades e riscos, típicas para uma formação histórica que propomos denominar “modernidade técnica”. A sua elevada “contingência” está inseparavelmente ligada com a própria técnica moderna. Aspectos desta questão aparecem em autores contemporâneos como Luhmann, Maffesoli ou Bauman, para mencionar somente alguns mais conhecidos. Apesar do cunho teórico desse campo de pesquisa, ela oferece auxílios conceituais para aqueles estudos que debruçam-se sobre o problema empírico do desenvolvimento tecnológico e social da sociedade, tentando propor caminhos aparentemente sustentáveis. As instabilidades e riscos também destes empreendimentos não condenam estes de antemão ao fracasso. A prognosticabilidade enfraquecida – resultado exatamente daquilo que denominamos “contingência da modernidade técnica” – não absolve os protagonistas sociais da sua responsabilidade no campo do agir. Todavia, o crescente grau de complexidade e a velocidade de mudança, evocados pela tecnicidade da modernidade, mudam todos os parâmetros da ação social; neste contexto a sociologia do desenvolvimento e a teoria social em geral têm a tarefa difícil de reconsiderar seus próprios paradigmas.
A técnica era sempre um meio usado pelo homem para certos fins. A racionalidade de fins é tanto expressão de processos técnicos, como sua causa movens. Fora de um processo manipulatório, seja qual for a sua natureza, um instrumento de trabalho técnico é simplesmente ininteligível. Um serrote serve para serrar madeira, sem madeira e sem alguém que serre perde este serrote a sua finalidade. O caráter finalístico da técnica, a sua definição como um meio para alcançar fins definidos pelo homem, é algo tão óbvio que parece suspender qualquer questionamento. Pois curiosamente surge no decorrer da história européia um fenômeno que transforma o meio técnico em algo novo, cujo caráter – ou cuja essência – nós ainda não entendemos. Na Europa, e somente na Europa, vinculam-se numa longa fase histórica, que começa no fim da Idade Média e estende-se até a véspera da revolução industrial, uma maneira específica de pensar – que chamamos posteriormente científica – com a fabricação e manipulação de artefatos e instrumentos e a empresa capitalista. Ciência, técnica, empresa capitalista – esta tríade faz a revolução industrial eclodir e não deixa dúvidas que estes tempos modernos distinguem-se de forma fundamental dos tempos anteriores. Pois o nosso velho serrote, a pá e o martelo encontram-se agora num contexto que radicaliza por um lado o caráter finalístico da técnica e, por outro, cria meios sem finalidade definida. A máquina a vapor, por exemplo, é um destes primeiros meios que podem ser utilizados para mover serrotes, levantar martelos ou inúmeras outras finalidades até que ela se equipe com quatro rodas e sai, como locomotiva, correndo da fábrica. A técnica moderna transcende a racionalidade de fins, que não deixa de existir, para fazer surgir meios que buscam posteriormente os seus fins. O engenheiro moderno descobre – ou desoculta – alguma coisa para perguntar depois: o que posso fazer com isso? O que posso fazer com o raio X, a energia nuclear, a DNA ou o Genoma Humano? O nosso velho serrote somente sabe serrar, ele é um meio para um único fim. O nosso computador é polivalente, edita livros, dirige submarinos e admite que brinquemos com ele, admite ou exige que procuremos algo que ele possa fazer, buscamos fins porque temos um meio.
A transformação da técnica em técnica moderna acontece com esta perda do caráter finalístico da técnica, ou melhor, com a prevalência da técnica como um meio aberto. Assim entramos no mundo do imprevisível onde a trajetória linear está sendo substituída pelos pulos quânticos, onde algo é necessariamente assim mas também poderia ser diferente. A técnica moderna é altamente contingente e contamina com essa contingência toda sociedade moderna.
Perceber algo como contingente significa vê-lo sob uma perspectiva diferente. Um novo olhar pode revelar a fragilidade das formas, das funções e do sentido. Algo é como é, mas, também poderia ser diferente. O que sempre apresentava-se assim recupera agora as suas possibilidades excluídas que apontam para o ainda-não. A contingência assusta porque ela significa a experiência temporária da aleatoriedade e da ausência de sentido. A inclusão da técnica na percepção da contingência assusta ainda mais, porque revela-a como produto de escolhas ocasionais, impulsionadas por hábitos culturais, interesses econômicos ou irracionalidades de qualquer espécie. A interpretação da técnica como algo necessário quer se livrar desta angústia assegurando a inevitabilidade do seu desenvolvimento. Assim, para alguns, as leis da história garantem o sentido social da técnica e do seu desdobramento, também se este fosse negativo. Os progressistas modernistas encontram aqui chão firme, como igualmente os catastrofistas e críticos negativos que prognosticam a inevitabilidade e necessidade da autodestruição da sociedade moderna através da técnica desenvolvida no seu bojo.
Por outro lado revela a percepção da técnica na sua contingência a existência de alternativas não realizadas. Entre o progresso necessário e a autodestruição necessária abre-se o campo da reflexão e da comunicação social e finalmente a chance de um agir diferente. Começa também a busca de um desenvolvimento técnico compatível com novos valores, premeditados inter-culturalmente e inseridos na ação comunicativa global.
